A irrigação e os caminhos das águas

A irrigação é umas das primeiras atividades intensivas humanas de controle da produção de alimentos quando cria condições específicas para a bonança da atividade laboral, principalmente em sociedades complexas o suficiente para intervir drasticamente em seu ambiente.

Conhecendo as características dos alimentos, seus ritmos de crescimento até a colheita e com a possibilidade de influenciar e manter sistemas produtivos com plena atividade, a intenção principal tende a ser a garantia das melhores condições para o desenvolvimento de atividades que abastecem a humanidade e mantém vivas as criações domesticadas.

Dialogar sobre a irrigação permite nos confundirmos facilmente com a discussão entorno das boas condições de uso e controle da água. Os impactos deste controle são positivos e negativos, tudo depende das condições de cada local a ser cultivado. Da pequena horta às grandes monoculturas uma série de fatores localizados vão indicar se há ou não sabedoria no uso da água.

É possível entre vários destes fatores destacar que a disponibilidade e qualidade da água no local vai interferir diretamente na produtividade, no bem estar dos envolvidos e na manutenção das condições de vida nestes ambientes.

A disponibilidade da água de boa qualidade será escassa ou abundante de acordo com a oferta e demanda deste bem comum e, portanto, é muito interessante que a oferta ultrapasse a quantidade de água utilizada para a irrigação em quantidades expressivas para a manutenção de seu ciclo natural de existência.

O manejo adequado das principais fontes de acesso à água utilizadas para a irrigação (superficial, subterrânea, fluvial e aérea) são prioridades para a agricultura em todo o planeta. Por exemplo, não faz sentido o investimento em captação aérea para locais com grandes rios e lagos, mas é de suma importância para pequenas comunidades e suas hortas comunitárias nos altiplanos andinos.

A produtividade de todos os sistemas agrícolas dependerá direta ou indiretamente do uso coerente dada a disponibilidade, destacando que as bases de sociedades complexas dependem de boas condições alimentares. No caso brasileiro, e em muitos outros países, dependemos também da irrigação para a produção de biocombustíveis e derivados, como é o caso do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar que, irrigada ou fertirrigada, depende muito de estratégias irrigantes.

A escolha entre diversas técnicas de irrigação são impactantes principalmente na biodiversidade local, determinando se estas escolhas são antropocêntricas ou biocêntricas. A manutenção das condições de existir, persistir e regenerar para todos os seres vivos influencia direta e economicamente no desenvolvimento local ou regional, permitindo ou não o bem estar, as atividades turísticas ou embelezamento e riqueza da paisagem. Por exemplo, em meio urbano os gramados verdes e floridos valorizam o bem-viver e o valor monetário dos imóveis.

A irrigação do futuro

Thomas Schelling, o gênio por traz da teoria dos jogos, já nos mostrou como pequenas decisões inofensivas podem criar um mundo de resultados imprevisíveis. Inteligência é a palavra de ordem para o futuro e contamos com as máquinas para o cumprimento dos desafios aos quais nossas soluções criaram mais problemas. Triste é perceber que não contamos com a inteligência natural humana e a grande e majoritária aposta são os sistemas automatizados ou artificialmente inteligentes.

Os equipamentos tecnológicos deverão garantir controle total do uso da água, da energia e até dos nutrientes de cada cultura irrigada, seja em ambientes históricamente reconhecidos como rurais ou urbanos, quiçá no espaço. As possibilidades da indistinção tendem à urbanização do mundo, porém ainda há a esperança do esverdeamento colorido global. É prevista a conectividade total entre todos os elementos entorno da irrigação e outros cenários da vida como um passo a mais da ubiquidade e pervasividade da internet na implementação de qualquer coisa.

As possibilidades de alinhar just-in-time as pesquisas em laboratório com os desenvolvimentos em campo permitirão o controle e a estimativa correta da capacidade de água para a irrigação, a contenção de vazamentos, a regulação e checagem de condições climáticas e microclimáticas, da pressão e principalmente informar para a tomada de decisões através de modelagem de cenários e futuros complexos, analiticamente robustos e capazes de manter pequenas ou largas escalas de produções das mais diversas.

A capacidade humana-máquina de intervenções na natureza poderá evitar a utilização de grandes obras massivas de infra-estrutura, tecnologias brutas, destruidoras e tipicamente fracassadas do ponto de vista biocêntrico. A singularidade dos momentos tecnológicos permitirão a comunhão com os ecossistemas globais e a principal tarefa da irrigação para os próximos séculos será a recomposição da flora terrestre, ou marciana, quem sabe.

E se as máquinas nos permitirem, poderemos não-irrigar porque estaremos juntos com a natureza e das coisas tais quais são e não como queremos. Como dizia Nasanobu Fukuoka, o grande mestre d´A Revolução de uma Palha: “o objetivo visto distante da totalidade não é uma coisa real”.

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